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Por que o Red Hot Chili Peppers continua conquistando multidões

[El País Brasil] O Red Hot Chili Peppers anunciou no mês passado as datas da sua turnê Global Stadium, feita apenas em grandes recintos ao ar livre, começando pela Espanha (o estádio La Cartuja, em Sevilha, em 4 de julho de 2022, e o Olímpico de Barcelona em 7 de julho). É a primeira vez na sua história que a banda vai tocar em grandes estádios da Espanha, e a notícia poderia parecer surpreendente: ela continua com fôlego para encher espaços tão grandes, a preços não exatamente acessíveis? (O ingresso mais barato custa o equivalente a 350 reais; o mais caro, 3.750.) A pergunta se respondeu sozinha quando, uma semana depois de iniciadas as vendas, o show de Sevilha lotou. Como isso foi possível? Analisamos as chaves do inesgotável sucesso do grupo californiano.

Celebrar a sobrevivência

O Red Hot Chili Peppers está na ativa desde 1983, e desde então sobreviveu à dependência por drogas pesadas, perdas de antigos membros, brigas internas e muitos momentos ruins nos aspectos criativo e emocional. De algum modo, anunciar uma turnê em estádios é uma aposta na qual ressaltam sua resiliência e se apresentam como uma superbanda disposta a homenagear-se a si mesma em grande estilo. Tanto, que nos EUA as atrações de abertura dos shows incluirão Beck, The Strokes, Haim e St. Vincent, entre outros (na Europa serão o rapper A$AP Rocky e o inclassificável Thundercat).

Além disso, como aponta Joan S. Luna, redator-chefe da revista Mondosonoro, é a primeira turnê de grandes dimensões a ser anunciada depois da pandemia. A covid-19 frustrou os planos do grupo em 2020, tanto de tocar ao vivo como de gravar um novo álbum que, além disso, representa o retorno da formação mais emblemática da banda: com o errático John Frusciante na guitarra e Rick Rubin como produtor. Para os seguidores da banda, que se mostram dispostos a viajar de inúmeros lugares da Espanha para a estreia, o show de Sevilha é duplamente simbólico: por abrir uma turnê mundial e pela promessa de ser a primeira grande festa roqueira pós-pandémica.

Hillel Slovak, Flea, Anthony Kiedis e Jack Irons (na primeira formação da banda)

Já viraram um clássico do rock

Como os Rolling Stones, Bruce Springsteen e o U2, o Red Hot é uma banda de rock clássica, que transforma cada um dos seus shows num acontecimento a ser visto, independentemente do interesse despertado por seus últimos discos. Basta ver que há cerca de 20 singles que o público geral sabe reconhecer e cantarolar, mesmo se nunca tiver comprado um álbum da banda. “Estão há muitíssimos anos sem assinar uma obra-prima. Acho que Californication, lançado em 1999, foi seu último grande disco, mas depois foram soltando singles que funcionaram muito bem comercialmente e viraram uma banda para todos os públicos, ao assinar uma infinidade de baladas mais lentas e canções mais acessíveis. Perderam boa parte do que fazia dela uma banda excitante para, em vez disso, oferecer uma fórmula efetiva e cobrir essa cota de gosto roqueiro para muita gente”, especula Joan S. Luna.

Entraram para a memória emocional de várias gerações

Ainda sobre o fator anterior, note-se a capacidade da banda do vocalista Anthony Kiedis e do baixista Flea de ter criado canções que perduraram na memória popular, de modo que o componente nostálgico também desempenha um grande papel. “O Red Hot fez a trilha sonora da minha vida. Faz quase 30 anos que ouço e toco suas músicas. Durante um tempo, eu punha Blood Sugar Sex Magik todas as tardes e tocava os baixos de todas as canções, do começo ao fim. Continuarei sem dúvida a escutá-los, pois não só me transmitiram seu amor pelo funk e o rock, como ouvi-los também transporta a épocas incríveis da minha vida”, diz Fran Belda, 44 anos, morador de Tenerife (ilhas Canárias), que assim que as bilheterias virtuais abriram comprou ingressos para ele, para sua mulher e para um grupo de amigos que vai reencontrar após vários anos.

A mulher dele é Susana Lasvignes, madrilenha de 45 anos, que afirma: “Sendo tão míticos e um grupo com o qual cresci, não queria perder a festa. No show, espero me conectar e empatizar com toda essa diversão”. A sevilhana Cristina Bendala, mais conhecido como Tinatha, promete: “Vou me divertir muito com meus amigos, cantar todos os seus hinos, e com certeza vou rir e chorar. Vão ter que me aguentar, com certeza”. Esta artista multidisciplinar (faz rap, grafitti, ilustração e desenho) descobriu o Red Hot através de uns skatistas, quando tinha 11 ou 12 anos, e automaticamente se transformou no seu grupo iniciático. “O Red Hot era como os meus primos legais, gente que me deu poder para crescer. Eu queria desenhar, colocar cores em tudo, pintar camisetas e as tingir com cândida, estar num grupo, andar de skate, ser selvagem e natural. E ficar forte como o Anthony também”, conta, entre risos. “Para mim foi muito importante sua atitude, via uns sujeitos louquíssimos, livres e selvagens, divertidos e com um espírito maravilhoso. Quase pelados no palco, com umas meias estrategicamente colocadas seus genitais, como esse cartaz que pendurei no meu quarto em 1996. Que maravilha!”

O que nos leva a…

Criaram uma estética única (e muito atrativa)

Ninguém duvida que um dos grandes segredos do seu sucesso foi a forma pessoal como fizeram confluir a marra do hip hop, o groove e a carnalidade do funk e a intensidade elétrica do metal e do punk, aos quais, na segunda etapa de sua carreira, somaram a acessibilidade mais melódica do pop e o do rock alternativo, além de uma imagem mais descontraída e amalucada. Foi algo que continuaram cultivando até no vídeo do anúncio da sua turnê. Cada um dos membros da banda é uma figura muito reconhecível, com seu próprio carisma e muito humor. Poderiam, aliás, ser personagens de HQs ou de desenho animado. Mas, quando estão juntos, impulsionam-se para outra dimensão.

Flea e Anthony Kiedis tocam seminus, apenas com meias estrategicamente posicionadas, em 1985.
Flea e Anthony Kiedis tocam seminus, apenas com meias estrategicamente posicionadas, em 1985.

A forma como interagem no palco emana muita diversão, mas também muita energia física. São uma banda musculosa no sentido literal e metafórico. “Basta ver como Flea continua convulsionando enquanto toca, com quase 60 anos, e como Anthony se move pelo palco, embora seja verdade que o vocalista perdeu bastante de uns anos para cá. Gosto também dos giros e da forma diferente de tocar algumas músicas. Esse momento em que John Frusciante, Flea e Chad Smith ficam prolongando uma canção e dá vontade de que ele não acabe nunca. Sobretudo, transmitem muitíssima energia positiva”, diz Fran Belda.

Para Tinatha, seus maiores valores sobre o palco são “a combinação de selvageria e sensibilidade, diversão e tristeza, explosividade e naturalidade”. Joan Luna os viu em quatro turnês diferentes e, segundo ele, “o mais atraente é certa sensação de descontrole que tiveram e que foram perdendo. A partir desse momento, o melhor que eles têm é um baixista descomunal, cujo valor vai além do que é a banda hoje em dia”.

São quatro músicos reputados e influentes

Todos os componentes do Red Hot Chilli Peppers, presentes e passados, estão apontados entre os melhores do mundo nos seus respectivos instrumentos. Anthony Kiedis se caracterizou por uma voz inconfundível em diferentes registros, que evoluiu até chegar ao topo em Californication. Chad Smith chegou à banda em 1989, sucedendo bateristas de prestígio como Jack Irons (depois no Pearl Jam) e Cliff Martinez (que posteriormente seria um dos mais requisitados compositores de trilhas sonoras) ― e foi quem a levou a um patamar superior com um estilo rápido e potente, que bebe do funk, do metal e do jazz. John Frusciante esteve dentro ou fora da banda segundo seus diferentes momentos de vida, mas presente nos discos mais importantes de sua trajetória: Mother’s Milk (1989), Blood Sugar Sex Magik (1991) e Californication (1999).

“Entre o mais reconhecível de seu estilo está sua limpeza e o espaço que deixa entre as notas e os acordes que dá: não é um guitarrista invasivo. Apesar de as pessoas não perceberem ou não saberem por que, sentem que ele deixa entrarem na canção, que podem se acomodar lá dentro. Com esse jeito de tocar, consegue que a bateria e o baixo, absolutamente fundamentais nessa banda, sejam ouvidos com muita clareza, e que em pouquíssimo tempo estejam acontecendo muitas coisas. Nunca, absolutamente nunca é vulgar, previsível ou óbvio. E tem outra coisa fascinante, que é o sentido físico que imprime ao seu instrumento. Dá para sentir o contato da palheta com a corda, é como ver um quadro de Pollock: você nota o gesto, o fato ativo do corpo ao executar a ação”, diz um conhecido guitarrista de rock espanhol.

E, claro, há Flea, considerado por muitos o melhor baixista da história. “É minha maior referência musical”, diz Fran Belda, que atualmente toca num grupo chamado Cachorro. “O que mais me impactou foi como ele slapeava no baixo, fazendo dele um instrumento de percussão. Além disso, me abriu as portas para o funk, me permitindo descobrir grupos incríveis como Parliament, Funkadelic e Sly And The Familiy Stone.” Susana Lasvignes, que toca bateria no Cachorro e anteriormente num dueto chamado Diecisiete, admira tanto Chad Smith quanto o baixista. “Além de ter um estilo superreconhecível, para mim Flea é um pirado que se diverte feito criança com seu instrumento, apesar dos anos, apesar do virtuosismo e apesar do sucesso; e isso me parece tremendamente admirável e invejável”, conclui.

Matéria Original: https://brasil.elpais.com/cultura/2021-11-15/por-que-o-red-hot-chili-peppers-continua-conquistando-multidoes.html

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Altair

Senior designer e fótografo