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John Frusciante Unlimited – Entrevista para Guitar World

Frusciante tinha apenas 18 anos quando ganhou a posição de guitarrista do Red Hot Chili Peppers. Até aquele momento ele havia passado anos aprimorando suas habilidades no instrumento, se imergindo nas músicas desde Hendrix, Beck e Page; Eddie Van Halen e Randy Rhoads; Steve Howe, Steve Hackett e Steve Vai; Frank Zappa, Robert Fripp e Adrian Belew. Ele ouvia Germs, B-52’s, Siouxsie and The Banshees, Sly Stone, James Brown e Parliament; até o funk, punk, rock, progressive, shred, new wave e gótico. “Eu passei por muitas fases” diz Frusciante. “Todo ano eu era uma pessoa diferente tocando guitarra, porque eu continuei melhorando, meus gostos foram mudando para algo mais difícil de tocar.”

Mas apesar de todo tipo de música que ele amava – e ele amava muita música – Frusciante amava mais ainda o Red Hot Chili Peppers. “Era a minha banda preferida”, ele conta ao Guitar World num entardecer através do Zoom. Morando em L.A na época, ele conta, “Eu ia aos shows o máximo que podia. Você ia a um dos shows deles e havia essa energia mágica. Era como estar em um sonho.”

É compreensível dizer então que se tornar um integrante oficial nessa energia mágica seria o sonho de um guitarrista. E para confirmar isso, quando Frusciante se tornou oficialmente um Pepper em 1988, ele trouxe consigo, como já esperado, a incontrolável energia e empolgação de um jovem que acabou de ganhar na loteria das guitarras. Outra coisa que ele trouxe? Licks de guitarra puros com grande nível de habilidade técnica no instrumento (nessa época, ele diz, ele podia tocar quase qualquer uma do Frank Zappa, assim como todos os solos de Alcatrazz em 1985 de bandeja, Disturbing the Peace, que foi performada por Steve Vai, quem começou a tocar com seis cordas) que permitiu que a formação punk-funk se aventurasse em reinos musicais ainda não explorados

Mas assim algo estava faltando. “No primeiro ano em que estive na banda foi definitivamente uma luta” diz Frusciante.

Ele faz uma pausa e continua “Eu tenho algo a dizer que acredito que provavelmente seria bom para guitarristas. Eu acho que no início do meu tempo com a banda, eu pensava muito em impressionar as pessoas e não confiava em mim o suficiente. Eu estava sentindo todas essas coisas – “Eu quero ser único”, “Eu quero me exibir”, “Eu quero me destacar” – e tudo o que eu fazia parecia foraçado. Eu não me sentia livre e não sentia que estava dizendo o que queria dizer. Eu não sentia que estava dando tudo de mim.”
O primeiro álbum de Frusciante com os Chili Peppers, Mother’s Milk de 1989, adicionou um elemento mais chamativo, hard-rocking ao som; com riffs mais intensos e leads mais rápidos. O álbum foi o mais popular até aquele momento e o primeiro com certificado de ouro pelas vendas. Mas Frusciante diz “quando estávamos terminando a tour, eu cheguei em um nível de infelicidade em que disse ‘Eu vou largar tudo isso que estou tentando fazer. Eu vou parar de tentar chamar a atenção das pessoas. Eu vou tirar o meu ego disso completamente.’”

Ao invés disso, diz ele “Eu decidi que iria usar minha guitarra para dar apoio para as outras pessoas na minha banda. Então eu simplifiquei o que fazia. E ao mesmo tempo, eu estava também colocando 100 vezes mais a quantidade de emoção e sentimento do que fazia antes.”

Essa mudança, de acordo com Frusciante, “foi o passo que fez com que, de repente, todas as pessoas respondessem firmemente ao que eu estava fazendo. Eu não estava tentando ser um Red Hot Chili Peppers em termos do que eu acreditava que outras pessoas achavam que deveria ser – eu só comecei a ser eu mesmo. E essa versão honesta de mim é o que vocês têm desde então.”

Essa versão honesta, em conjunto com uma mente aberta e criativa e uma determinação de tocar apenas para a música, tem sido a linha de ação em todo o trabalho de Frusciante, desde os licks meio funk, melodias com acorde ao estilo de Hendrix e riffs pesados que o caracterizaram em 1991 na época de Blood Sugar Sex Magik, até às linhas esparsas e vocais que combinaram com as paisagens tranquilas de “Scar Tissue” e “Californication”, ambas do álbum Californication de 1999. Isso está presente nesses períodos de pausa e experimentação de diferentes solos que ele produziu enquanto estava longe da banda. E está presente no novo álbum Unlimited Love, o primeiro álbum de Frusciante com o Red Hot Chili Peppers em 15 anos.

Não é surpresa o novo álbum ser esperado ansiosamente. Os Chili Peppers tiveram diversos guitarristas extraordinários na banda ao longo de sua existência, desde o falecido Hillel Slovak (quem Frusciante sempre reconheceu como grande influência), ao atual guitarrista do Jane’s Addiction, Dave Navarro; até o mais recente, Josh Klinghoffer, quem tocou nos últimos dois álbuns, I’m With You de 2011 e The Getaway de 2016. Mas de fato é a combinação da guitarra de Frusciante com o baixo de Flea, a bateria de Chad Smith e os vocais de Anthony Kiedis que constitue, para muitos fãs, a versão definitiva da banda.

E há muita música em Unlimited Love para comprovar essa opinião. O álbum em si é uma promessa, com 17 músicas compondo mais de uma hora de trilha. Ao longo delas, Frusciante está incrível. Na primeira música, também primeiro single, “Black Summer” em que seus acordes dão espaço para a linda melodia do refrão, um solo poderoso, e o término apressado com “Tangelo”, composta pelo seu estilo gentil, quase clássico. Há também as linhas trêmulas de “The Great Apes” e o acorde complexo de “White Braids & Pillow Chair”. Há os padrões singulares de nota que encerram “Verônica” e as ondas de feedback que ele cria em “The Heavy Wing”.

O resultado não é apenas um ótimo álbum do Red Hot Chili Peppers, mas um que mostra que a banda, mais de 30 anos após Frusciante entrar pela primeira vez, continua alcançando novos patamares juntos. “Quando eu comecei a falar com o Flea”, relembra Frusciante sobre seu último retorno a banda, “nós falamos um para o outro, ‘Se começarmos a tocar juntos de novo, devemos fazer algo totalmente diferente do que fizemos antes’”.

Quando Frusciante e Flea tiveram essa conversa, não foi para valer, não havia garantia de que eles iriam tocar juntos de novo, pelo menos não no Red Hot Chili Peppers. Frusciante havia deixado a banda em 2009, durante a grande turnê do álbum Stadium Arcadium, para ir em busca de sua própria música. Ele passou a década seguinte imerso em carreira solo explorando sintetizador e música eletrônica. Mas ele nunca parou de tocar guitarra.

“Eu estava compondo música eletrônica, mas também passei por um período, não muito tempo atrás, em que estive tocando muita música do Charlie Christian”, diz ele, “O meu padrão era fazer música eletrônica seis dias na semana, e um dia eu gastava cerca de 15 ou 16 horas aprendendo os solos do Charlie Christian. No final daquele ano, eu já tinha aprendido todos os solos que ele fez com Benny Goodman e Lionel Hampton – eu memorizei todos.”

Durante esse período, Frusciante e Flea retomaram a amizade. “Para o Flea, o jazz foi a primeira música que fundamentou a mente dele musicalmente”, diz ele, “Então ele ficou empolgado de eu estar aprendendo Charlie Christian e me pediu para indicar algumas músicas para ele aprender e ele aprendeu. Nos encontrávamos algumas vezes para fazer isso e um tempo depois eu tinha alguns beats prontos na minha drum machine no meu estúdio e nós tocamos neles algumas horas, apenas eu com a minha Strat e ele com o baixo dele. Não teve nada a ver com eu querer voltar para a banda de novo. Nós tocamos Charlie Christian e simplesmente parecia divertido tocar na drum machine.”

A partir daí as peças começaram a se encaixar. “Nessa mesma época, eu encontrei o Chad em algum lugar e ele disse que adoraria tocar comigo”, diz Frusciante e ri, “E ficou tipo ‘Quem vamos chamar para tocar o baixo junto? Não conheço muitos baixistas!’ Mas eu e o Flea tinhamos acabado de ter esse momento incrível tocando juntos e eu contei a ele ‘O Chad disse que gostaria de tocar junto algum dia. Você estaria disposto de tocarmos nós três?’ E o Flea disse ‘Sim, seria muito legal”.

“E eu lembro que ele ficou parado por 10 segundos e disse ‘Você pensa em voltar para o Red Hot Chili Peppers?’”

Naquela época, Klinghoffer ainda era o guitarrista dos Chili Peppers. Mas a química entre Frusciante e sua antiga banda era inegável. “Então eu disse ao Flea ‘Sim, eu tenho pensado sobre isso’ E a partir disso nós conversamos um pouco. Depois Flea foi falar com Anthony que disse estar muito animado com a ideia”

Ainda assim, Frusciante resistiu. Ele já tinha saído da banda duas vezes – a primeira vez em 1992, quando ele se sentiu desconfortável com a imensa fama dos Chilis com o sucesso de Blood Sugar Sex Magik, e novamente depois de Stadium Arcadium. “Estar em uma banda com outras pessoas pode ser muito difícil quando você está em uma posição vulnerável e colocando seu coração em tudo o que faz”, reflete ele. “E eu diria que o maior problema que já tivemos foi a falta de comunicação nos momentos em que ela seria muito produtiva. Então eu queria esclarecer tudo e ter certeza de que ninguém tinha falsas expectativas.”

Ele tanto queria ter certeza, de fato, que quando Flea e Kiedis o encontraram algumas semanas depois para conversar sobre a possibilidade do retorno, “Eu queria esclarecer todos os motivos pelos quais eles talvez não me quisessem de volta na banda”, diz Frusciante, “Eu até fiz anotações porque eu queria listar o máximo de motivos que pudesse que pudessem fazer com que eles se arrependessem da decisão, sabe?”

Mas no fim das contas, diz ele, “nada do que eu disesse mudou a opinião deles.”

Frusciante é o retorno mais significativo aos Chili Peppers em Unlimited Love, mas não é o único. A banda também se reencontrou com o produtor Rick Rubin, quem produziu todos os álbuns desde Blood Sugar Sex Magik, com exceção do recente The Getaway. Devido aos últimos acontecimentos, parecia lógico trazê-lo de volta. Rubin foi convidado para o primeiro ensaio da banda com Frusciante e disse em recente entrevista que ver os quatro músicos tocando juntos de novo o fez se sentir tão emocionado que ele começou a chorar.

Quando a banda reunida se estabeleceu no estudio de Rubin em Malibu, Shangri-La, eles trabalharam duro e rápido.”Nós gravamos 50 músicas em 3 semanas”, diz Frusciante. O guitarrista morou no estúdio durante as sessões e em seu quarto lá, continua ele “Eu tinha uma foto de Johnny Thunders à esquerda e uma foto de Randy Rhoads à minha direta. E tinha uma foto de Jimi Hendrix atrás de um mixer de áudio no meio. Não foi planejado, mas pareceu refletir onde eu estava em termos de estilo que estava tentando ter no álbum.”

Esses 3 guitarristas podem ter sido uma presença visual constante para ele durante as sessões, mas haviam outros músicos na cabeça de Frusciante também. “Em relação à lead guitar” diz ele, “as músicas que ouvi sem parar e tocava eram Blow by Blow e Wired de Jeff Beck, e The Complete King Federal Singles de Freddie King, que são todos os seus singles antigos compilados num CD duplo. Eu estava decorando aqueles solos o tempo todo.”

O que era tão chamativo em Beck e King? “Eu adoro o jeito com que eles fazem cada nota ter sua própria personalidade – como se cada nota fosse um evento emocional separado”, diz Frusciante, “O que é algo que as pessoas costumam perder quando estão tocando rápido o tempo todo – as notas são tocadas meio que do mesmo jeito e não há muitas distinção entre elas porque está muito rápido. Mas eu queria tocar de uma forma que fosse lírica, emotiva e expressiva. Então Jeff Beck, Freddie King, Albert King, essas eram grandes inspirações para mim durante a gravação. Haviam outros também, mas esse eram os principais.”

A partir daqui, a conversa de Frusciante sobre sua abordagem na guitarra partindo da técnica para algo mais espiritual, “Eu também me inspirei muito em pessoas que não se importam muito com a técnica, mas sim com a energia que colocam no instrumento – parece que estão fazendo o instrumento explodir” diz ele. “Para mim existem algumas formas de se fazer isso. Eddie Van Halen fez isso. Muito disso teve a ver com sua técnica, mas também havia muita energia naquelas técnicas. O Randy Rhoads também. Toda vez que ele começava um solo era muito empolgante, sabe? Era algo pelo qual você mal podia esperar”

Ele continua, “Esse é um tipo de energia. Há também o tipo de energia de alguém como Johnny Thunders, principalmente no primeiro álbum Heartbreakers, onde não é muito sobre ter controle do instrumento, mas mais sobre estar fora de controle e fazer o instrumento parecer que vai explodir nas suas mãos. Johnny Thunders era muito bom nisso, Greg Ginn era muito bom nisso, Kurt Cobain era muito bom nisso. Então muito do que eu estava tentando fazer nesse álbum era tocar de um jeito que fizesse uma ponte entre essas formas de expressão – há pequenos detalhes especiais e há momentos em que o instrumento está sendo praticamente esmagado. Eu me concentrei nessas duas coisas.”

Como exemplo dessas duas abordagens extremas na guitarra em Unlimited Love é Frusciante tocando em “The Great Apes” “Nessa música, tanto no solo do meio quanto no solo do final eu sinto que estou fazendo uma mistura dessas coisas diferentes”, diz Frusciante, “Estou tocando rápido, mas a coisa mais importante é que tem muita expressão nisso”

Há também, acrescenta ele, muita intensidade, “É fazer com que a guitarra soe como se tivesse mais intensidade ela simplesmente explodiria.”

O período de John Frusciante dentro (e fora) do Red Hot Chili Peppers, e os grandes altos e baixos que vieram com isso foram bem documentados. Durante todo o tempo, diz ele, foi criado um laço entre a banda que nunca pode ser quebrado. “Nós temos uma relação especial porque fomos juntos de uma banda pequena para uma banda de estádio” diz ele, “Quando eu entrei na banda, nós tinhamos alguns shows ruins. Não o tempo todo, mas tivemos shows em que ninguém apareceu ou shows em que sentimos que o público não estava tão entusiasmado quanto antes de eu entrar. Então tivemos que construir nossa energia juntos para criar algo novo na banda. E nós pegamos isso um do outro. É uma conexão que temos que ninguém mais pode compartilhar conosco porque apenas nós quatro tivemos essa experiência.”

É uma experiência, reconhece Frusciante, bem diferente da que a versão original da banda – Flea, Kiedis, guitarrista Hillel Slovak e baterista Jack Irons – teve. “Aqueles caras se conheciam no ensino fundamental e ensino médio e foram de caras dormindo no chão da casa das pessoas para “Uau, quando subimos no palco temos essa energia que faz todos dançarem” diz Frusciante, “Para mim, nada do que fizemos chega perto disso em relação a energia que eu senti nos shows deles”

A adoração de Frusciante pela formação original do Red Hot Chili Peppers é profunda e sincera. Tanto que, uma semana após nossa entrevista, ele volta falar sobre como se sentiu entrando para sua “banda favorita no mundo”.
“Eu só queria continuar tocando no estilo que eles criaram com Jack e Hillel” diz ele, “Eu pensei que iria tocar como o Hillel, só que com mais estilo. Depois de uns nove meses eu percebi que o estilo não estava impressionando ninguém e não havia lugar para isso na química da banda, então durante um tempo eu só confiei na minha energia. Nesses primeiros nove meses eu percebi que a maioria do público deles não gostava de mim, mas quando lançamos Mother’s Milk eu me senti bem aceito.”

Em relação a influência de Slovak, que morreu tragicamente devido a uma overdose de heroína com apenas 26 anos (em 1988), Frusciante diz “Eu tive muita sorte de substituir uma grande músico com estilo. O desafio de tentar agradar o público foi fator determinante para a construção da minha personalidade e mesmo quando meu próprio estilo aparecia, eu ainda estava usando o estilo dele como base. E por sorte para mim, houve uma mescla estranha de almas, onde quando mais eu continuava seguindo os parâmetros do Hillel, mais eu soava como eu mesmo. Eu queria fazer a banda soar bem e parei de me preocupar com a forma como ia fazer isso. Eu fiquei feliz de dar apoio para os outros na banda e, inesperadamente, isso fez com que eu me destacasse mais. Até hoje eu vejo o estilo do Hillel como o centro do meu, onde a banda está concentrada. Ele sabia trabalhar em equipe e acrescentava energia e significado para as contribuições dos seus colegas de banda, e é isso o que eu tento fazer.”

Curiosamente, com toda a jovem devoção de Frusciante aos Chili Peppers, ele também diz que “chegar ao nível deles foi algo gradual”. Ele começou a gostar da banda com 14 anos quando seu professor de guitarra na época fez um teste para a banda. “Foi quando o Hillel e o Jack saíram (depois retornaram) e eles estavam procurando um novo guitarrista e baterista” diz Frusciante “Eles escolheram Cliff Martinez do Captain Beefheart para tocar bateria e estavam decidindo entre Jack Sherman e o meu professor para guitarrista. Ele não passou, mas eu conheci a banda quando ele me contou sobre o teste.”

Não muito tempo depois disso, um amigo deu a Frusciante uma coletânea de músicas dos Chili Peppers. Frusciante gostou do que ouviu, mas, diz ele, “eles só se tornaram minha banda favorita quando os vi ao vivo. Isso foi quando a banda original, com Jack e Hillel, tinha voltado e eu nunca tinha visto nada assim. A energia era incrível. Eu fiquei pulando durante todo o show e a coisa toda era um borrão psicodélico. Todo mundo estva muito feliz e não parecia que a banda e o público eram coisas separadas. Então se você me perguntar o que eu amei neles, foi isso – a energia mágica.”

Assim como evidenciado em Unlimited Love, essa energia mágica continua viva no Red Hot Chili Peppers até hoje. Mas requer comprometimento “Eu acho que adorei tanto a banda com a formação do Hillel que, quando eu entrei, só conseguia pensar nessa energia e em querer alcançá-la” diz Frusciante, “E eu pensei que isso significava ser o melhor guitarrista possível, em todos os aspectos”

O que realmente significava, conform Frusciante continua, era descobrir a “versão sincera” dele mesmo como guitarrista. “Assim que parei de forçar” diz ele, “foi quando comecei a sentir ‘Uau, nós realmente temos a mesma energia mágica que a banda tinha com o Hillel.’”

Frusciante faz uma pausa, “Não que estejamos tentando ter essa energia,sabe? Nós simplesmente temos.”

LOVE STORIES

John Frusciante do RHCP sobre a composição e gravação de cinco músicas de destaque de Unlimited Love, instrumentos e tudo o mais.

Black Summer

“Durante o tempo em que não estive no Red Hot Chili Peppers, houve apenas poucos anos em que usei a guitarra na minha música . Mas continuei praticando porque é algo que faço para estimular o cerébro de formas interessantes. Eu ainda não havia escrito minhas músicas. Mas agora a possiblidade de voltar para a banda surgiu quando o Flea começou a falar comigo sobre isso, então eu peguei minha guitarra e pensei ‘Huum… Será que ainda consigo compor uma música de rock?’ Porque todo o meu conceito de melodia mudou para um vocabulário completamente diferente.

O que eu lembro é que peguei minha guitarra e surgiu ‘Black Summer’. Eu compus a ideia original do verso e do refrão. Eu tinha uma melodia para o verso e o refrão também, mas o Anthony criou sua própria melodia para o refrão e só usou a minha para o verso. E o que ele fez no refrão é muito melhor do que o que eu fiz originalmente.

Algo que gosto muito é mudança de acorde, onde eles ficam quase iguais a melodia e não dependem da linha do baixo em sincronia. Essas mudanças em Black Summer, o fato de ter um Lá maior na progressão de acorde do verso, mas tem um Lá menor depois na próxima linha, coisas simples assim são interessantes para mim. Ou ter um Mi maior no refrão, mas no verso o Mi é menor. São esses exercícios mentais que tornam divertido compor mudanças de acorde para mim. E é natural, eu não estou pensando nisso ‘Seria legal se eu mudasse o maior para o menor?’ É simplesmente o que me move. E também acredito que mantém a música numa direção que cria sentimentos inesperados. Mesmo que você não seja músico, quando isso acontece, acontece uma mudança na sua reação emocional.”

Veronica

”Flea e eu sempre fizemos essa coisa que chamamos de ‘faceoffs’. Se estamos tocando e temos um bom verso, mas precisa de outra seção, antigamente nós encostávamos a testa um no outro literalmente com um olhar meio bravo. E depois ‘Ok, eu vou lá fora e você fica aqui’ Nós íamos para ambientes diferentes e eu escrevi uma seção e Flea escrevia outra. Nós dois tentávamos compor um refrão, uma ponte ou o que seja e voltávamos para a sala; e cada um tocava sua parte e uma delas entraria na música. Ou às vezes as duas entravam.

No fim das gravações nós estávamos fazendo isso para um música que não entrou para esse álbum. Fizemos o ‘faceoff’ para criar o refrão e para a parte que eu fiz, Rick e Anthony disseram ‘Isso precisa ser uma música única’ Então eu fui para o meu quarto naquela noite e pensei ‘O que falta? O que não temos em todas essas músicas?’ E eu criei os tempos. Eu sou uma grande fã de tempos. É uma das minhas coisas preferidas no Black Sabbath – os primeiros quatro álbuns deles tem esses tempos diferentes dentro da mesma música. Outro exemplo seria Some Velvet Morning do Lee Hazlewood e Nancy Sinistra ou We Can Work It Out dos Beatles. Eu pensei ‘Isso é algo que não temos em nenhuma das músicas – um refrão que é completamente diferente em sentimento e tempo em comparação ao verso. E esse foi o objetivo de Veronica. O verso é em 4/4, mas o refrao tem um sentimento de 3/4.

Outra coisa sobre a música é aquele efeito wawawawow no verso. Algumas pessoas provavelmente acreditam que é um efeito da guitarra, mas na verdade é meu sintetizador. E fizemos todo esse reverb backwards, às vezes em um instrumento e às vezes na banda toda, para que esses tempos pareçam mais fluidos. Meu ouvido está sempre procurando por algo assim – como podemos gravar de forma mais intensa sem crompometer a parte pura disso?”

The Heavy Wing

“Havia uma música do Syd Barrett ou do Move que era muito boa e os acordes eram Mi maior, Ré maior e Lá maior. E eu pensei ‘Esses acordes conseguem ser tão poderosos, eu deveria compor algo com eles’ Mas também pensei ‘Vamos começar com esses acordes e ver onde posso chegar’

Eu comecei a música um riff funk simples. Por causa da minha obsessão com breakbeats e música eletrônica se eu escuto muito funk do final dos anos 60 e começo dos anos 70. Então pensei ‘Vou começar com um riff que pareça estar indo para uma música funk, mas depois entra nesse mundo psicodélico’
A guitarra no verso está com o sintetizador, só para dar um movimento sutil. E no breakdown antes do solo você escuta a mesma guitarra tocando a mesma parte da intro, mas com uma modificação modular mais pronunciada. Também há esse tratamento modular na guitarra nos últimos quatro acordes de Black Summer – bem sutil, mas estéreo – e fez uma grande diferença. Esses são exemplos da utilização do sintetizador mais do que os pedais.

Para o solo da guitarra eu estava com a minha Stra ’62, que tem sido minha guitarra principal desde que voltei para a banda na primeira vez, em Californication,e estava tocando bem alto no Marshall. Tão alto que precisei usar fones ou iria estourar meus tímpanos. Estava numa sala bem grande então tinha um espaço grande para ficar onde quiser e me movimentar enquanto tocava diferentes feedbacks.

Tem uma parte no solo onde há feedback e estou tocando algumas notas de trás para frente e então sobe para uma oitava maior, depois sobe para duas oitavas acima disso. Parece quase com um feedback arranhado que as pessoas costumam evitar, mas você ainda consegue ouvir que estou tocando as notas do mesmo jeito de quando o feedback começou. Eu não planejei isso. Eu não fazia ideia de tocaria aquelas notas. Mas acontece algo assim, tudo o que você pode fazer é manter e torcer para não esquecer. Eu adoro esse aspecto do solo – sem muito planejamento pensando ‘Ok, aqui vamos nós’, ao invés disso apenas escutar conforme toca e depois criar algo com o que você está ouvindo.”

The Great Apes

“The Great Apes foi algo que o Flea escreveu. A parte da guitarra que toco no refrão é apenas o que a linha de baixo dele me inspirou. É definitavamente inspirado em Fugazi. O fato de estar tocando rápido, mas tocando uma melodia meio lenta, o sentimento que isso traz é algo que escuto bastante na música deles. Ao mesmo tempo, os slides que acontecem no meio disso se parecem muitos com Johnny Thunders.

Vou te dar uma dica de estúdio que fizemos nessa música porque parece que eu estou fazendo algo mais incrível do que realmente é. No final, Flea e eu trocamos. Na maior parte da música, durante o refrão estou tocando a melodia que falamos e Flea tocando os acordes. Mas quando chega no final, eu estou tocando os acordes do Flea e ele está tocando a minha melodia. E de alguma forma soa como um baixo quando eu começo a tocar os acordes!

Outra coisa sobre o final: estou tocando esses acordes no final, mas nas últimas quatro notas da música eu volto para o solo. Eu tinha duas guitarras – tenho certeza de que era minha Stratocaster durante a distorção do pedal de um lado e uma Yamaha SG 2000 num Marshall do outro, e eu usei as duas para criar esse poder estilo Black Sabbath. Mas comecei meu solo tão rápido que não conseguia usar as duas. Eu tentei, mas era muito rápido. Então fizemos de forma artificial, com delay e velocidade alterada na fita. A fita está se movendo sutilmente para que as partes não fiquem exatamente iguais. Porque quando você sobrepõe algo, a pequena diferença nas partes é o que traz o poder. Então o que você está escutando dá a impressão de que eu toquei a mesma coisa duas vezes, apesar de não fazer isso nesse caso.”

Tangelo

“Estávamos no final do processo de composição e eu estava pensando ‘Ok, quais estilos não fizemos?’ Porque durante um tempo tivemos muito funk e fizemos muitas músicas divertidas, mas pareceu que tinhamos pouco material pesado. E era isso que eu trouxe em The Heavy Wing e em outras. Mas eu também percebi que faltavam coisas suaves e gentis. Então escrevi Tangelo só para preencher esses espaço. Eu pensei em compor algo no violão e de novo, foi um dos casos onde eu tinha a melodia e o que o Anthony fez com isso foi inspirado nela, mas também foi completamente diferente em muitos sentidos. Ele fez num estilo Lou Reed, meio falando e meio cantando, já a minha melodia era bem restrita seguindo os acordes.
Eu toquei a parte acústica com dois intrumentos. Dois Martins – não lembro o modelo, mas eu tinha há muito tempo. Um é um Martin marrom meio pequeno. É dos anos 40 ou 50. E o outro é um Martin dos anos 60 que se parece com o do John Lennon no filme Magical Mystery Tour. Eles são os meus bebês.
Os overdubs nessa música foram divertidos. Eu lembro que no última dia de gravação do álbum, eu estava indo embora e senti um vazio dentro de mim. Me senti drenado. Então pensei ‘Deixa eu tentar uma coisinha…’ Eu comecei com um Mellotron e depois comecei a fazer overdubs sintetizados e o Mellotron fervorosamente por cerca de 3 horas, criando as partes so segundo verso e indo até o último verso. Pareceu que a música subiu de nível. E foi muito inesperado – eu pensava que não tinha mais nada em mim e depois criei tudo isso. Foi uma forma muito boa de sair do estúdio.”

Tradução: Amanda Colombo

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