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Anthony Kiedis: “Fiquei seis meses isolado numa ilha escrevendo músicas”

Em uma conversa sensacional com o entrevistador Zane Lowe para a Apple Music divulgada hoje (30/03), o Anthony Kiedis contou detalhes sobre o processo de composição do novo álbum Unlimited Love, além da sua relação com os demais integrantes do Red Hot Chili Peppers.

>> Video legendado no final da matéria <<

Com uma bela paisagem de fundo mostrando o Oceano Pacífico, o Anthony comenta que adora ver as ondas e que sempre é uma boa ideia surfar e compara o esporte com dançar e que isso é um ótimo exercício, além de não ter telefones, computadores, chave de carro, eletrônicos e nenhuma outra preocupação, o que é uma maneira de se desligar do mundo para ele.

Após compararem as cidades de Londres, Auckland e Los Angeles, falam da amizade entre os dois e que ambos têm filhos adolescentes no momento.

Ao entrar no assunto RHCP, Anthony conta que telepaticamente John Frusciante teve a mesma ideia que ele e o Flea, que precisavam conversar e discutiam quem iria falar primeiro. Mas a ideia de todos era a mesma: voltarem a ser uma banda.

O vocalista do Red Hot falou bastante sobre o John, começando sobre como é a maneira que ele cria músicas:

“John tem toda essa energia e emoção dentro dele que fica muito claro quando ele compõe e toca. É muito divertido ouvir porque não são apenas notas, são sons, emoções e cores de uma maneira que não cobra tanto esforço dele, já que ele não se preocupa com isso. Ele não tenta tocar a nota “certa”, ele toca o que ele realmente sente. Simplesmente começamos a tocar e escrevemos bastante.”

Sobre o novo álbum Unlimited Love, Anthony conta como foram as escolhas das músicas que fazem parte do disco:

“O processo que passamos do que se tornou esse álbum foi muito democrático, já que todos votamos, incluindo o Rick Rubin (produtor). Então tivemos que aceitar quando uma música favorita pessoal de cada um não entraria no álbum. Eu perdi algumas votações, mas não fiquei bravo com isso. Eu achava que tinha as melhores ideias, assim como o Flea, mas todos tivemos que nos comprometer com isso e então escolhemos essas 17 faixas”.

Também falou sobre o seu processo de composição:

“Gosto de todas as variedades no que diz respeito a escrever uma letra de música. A forma abstrata é uma das minhas favoritas porque muito já foi dito em canções em todo esse tempo, então gosto de encontrar novas formas de adicionar liricamente em uma música que não seja previsível ou que já tenha sido feito muitas vezes. E tenho esse desafio por estar sempre atrasado no cronograma, sempre acontece isso. A banda cria vinte músicas e então eu tenho que escrever as letras para elas. Depois vinham mais vinte músicas, depois mais algumas…Não me dei ao luxo de me censurar dessa vez. O que quer que viesse na cabeça, teria que encontrar alguma forma de usar porque tinham muitas músicas me esperando para serem escritas. Geralmente fico pensando se a ideia vale a pena ou não, mas nesse caso, tudo que pensava faria parte da letra da música. Sempre me sinto atrasado em relação a isso, mas nesse caso específico me senti ainda mais por conta da quantidade de músicas que estavam nascendo”.  

Anthony conta como foi criar a música “Not The One”:

“O Flea juntou uma bateria eletrônica com baixo na garagem dele, mas o que ele fez não é o resultado final de “Not The One” porque a ponte era o verso e o refrão era a ponte e era totalmente invertida a estrutura da música. Todos os dias depois dos ensaios, eu vou para casa e fico ouvindo o que fizemos nesse dia várias vezes esperando que isso faça com que venha alguma ideia do que cantar. Nesse dia eu senti a melodia de uma forma diferente do que ele tinha feito. No dia seguinte perguntei para o Flea se tudo bem mudar a estrutura da música e ele falou para fazer da maneira que eu achasse melhor, o que me surpreendeu, já que ele tinha feito uma melodia linda e achei que ele gostaria de manter o que tinha feito. Eu estava passando por alguns meses solitários e introspectivos. A ideia da letra veio disso de “Eu acho que sei quem você é, mas talvez não saiba. Talvez você saiba quem eu sou, ou não”, especialmente em relacionamentos íntimos quando as pessoas vão criando ideias. Mas e se a gente mostrasse o nosso pior desde o começo, sem tentar impressionar um ao outro, só mostrando as falhas e fraquezas? Talvez não ficaríamos surpresos quando descobríssemos isso com o passar do tempo.”

Falou ainda sobre a sua relação com o Flea:

“Eu e o Flea somos sobreviventes. Não tivemos pais muito presentes nem muitas pessoas para nos guiar quando éramos mais novos. Então nos conhecermos jovens, criar uma banda e passar por tantas dificuldades ao longo dos anos fortaleceu a amizade”.

Sobre lidar com atritos dentro da banda, recebeu um conselho do John:

“John me disse a coisa mais inteligente que ouvi na vida há um ano que realmente me pegou. Em um dia bom, alguém da banda estava me incomodando e o John disse: “São essas coisas que incomodam que fazem a pessoa ser maravilhosa do jeito que ela é.” E pensei que provavelmente isso acontece com todos os integrantes da banda. Nós aceitamos e amamos uns aos outros e existe uma amizade incondicional acontecendo entre nós. Isso não quer dizer que queremos estar juntos todos os dias, mas essa amizade nunca morre. É legal esse vai e volta. Eu os admiro e agora que o John me deu esse toque que as coisas que incomodam fazem eles serem as pessoas que são, as coisas ficaram mais fáceis de entender. O John é uma pessoa extremamente empática que percebe quando estou com problemas e se oferece para ajudar numa solução.”

Anthony ainda lembrou das saídas do John do RHCP:

“O John entrou na banda no final de 1988, após o falecimento do Hillel, o que já era uma perda emocional enorme e nos fez descobrir quem nós éramos. E em três anos juntos, lançamos o Blood Sugar Sex Magik e saímos em turnê. Ele é muito inteligente, sensível, cósmico e atordoado em um nível muito extremo, o que faz ele ser quem é. E aquilo que estávamos vivendo era muita coisa. Dinheiro, fama, atenção, bajulação, responsabilidades não são coisas fáceis para todos lidarem. Pode ser algo impossível de digerir ou de fazer sentido viver assim e pode deixar a pessoa maluca. E era onde ele estava. Era muito jovem e estava em outro nível de conhecimento. Estava ainda mais sensível e empático com ele mesmo para tolerar tudo isso. Então ele explodiu. Ele desapareceu e conseguimos sobreviver. Tivemos essa Era interessante com o Dave Navarro e o John se afundou o máximo que pôde. E parecia um suspiro de um fantasma na época dizendo “Eu ainda não morri”. Então aceitamos fazer isso com ele novamente e surgiu o Californication, By The Way e Stadium Arcadium. E aí ele teve uma decisão holística do tipo “Isso não é para mim, é muita coisa. É muita atenção, viagens, caos e tudo isso.” Então ele saiu e acho que ele precisava desses doze anos processando tudo isso, que era o que ele estava querendo fazer de forma devagar. Acho que ele entendeu que por mais que a situação esteja difícil, é apenas a vida e a oportunidade de estar numa banda e talvez achar uma maneira melhor de fazer isso sem levar tanto as coisas para o lado pessoal e ter a oportunidade de fazer músicas lindas com os amigos. Talvez estejamos mais velhos e diferente e talvez entramos nesse ‘Amor Ilimitado’, que foi uma experiência divertida e selvagem.”

Anthony contou como foi o comportamento do John na volta para a banda:

“Quando o John voltou, ele teve o senso de não querer pegar de onde paramos, que foi quando ele saiu da banda de maneira holística. Ele não quis recriar o que fizemos no passado, nem ter a pressão de criar uma canção de rock popular. Sugeriu que tocássemos músicas antigas de blues dos anos 50 e talvez algumas dos nossos três primeiros álbuns.”

Quando perguntado como ele acha que o John vai se comportar quando a banda sair em turnê, Anthony falou o seguinte:

“Acho que o John sabe que o mundo que estamos entrando novamente de turnês em estádios é o mundo maluco do rock and roll e que tem um pouco de caos, babaquice e insanidade e acho que ele está preparado emocionalmente de uma maneira diferente. Vamos ver o que acontece. Acho que ele está com uma leveza dentro dele que ele sabe que as coisas mais absurdas que se possa imaginar vão acontecer e que ele terá que lidar com isso.”

Anthony ainda contou como lidou com o falecimento do pai e como é a sua relação com o seu filho:

“Quando meu pai faleceu, foi algo lindo. Eu estava feliz por ele estar bem resolvido e não estar mais sofrendo. Não fiquei com o coração quebrado no momento que ele faleceu, mas conforme o tempo foi passando, ficava querendo poder ligar para o meu pai para contar coisas que estavam acontecendo comigo, como a volta do John para a banda, que o neto dele está jogando basquete e todas essas coisas. Eu passeava pela cidade para ir para os ensaios e passava pelos locais que ele me apresentou, então as memórias voltavam e lembrava que meu pai me apresentou muitas coisas legais. Ele vivia de uma forma destrutiva, mas sempre me alimentava com experiências e ideias interessantes para a vida. Quero fazer o mesmo para o meu filho, mas estamos em uma Era diferente agora. Ele não leu a minha autobiografia, até porque ninguém na idade dele está lendo livros. Ele já me perguntou o que eu falo no livro e eu o proibi de ler. Ninguém na minha família pode ler. Mas acho que ele já sabe o que contei no meu livro.”

E contou de como funciona a criação de músicas no RHCP e porque eles conseguem se encaixar musicalmente:

“A banda só funciona quando a gente escuta o que o outro está tocando. E todos somos assim, incluindo até o Rick Rubin. Quando você escuta o outro, dá certo.”

O Anthony falou um pouco mais sobre o produtor Rick Rubin:

“O Rick é um estado constante de mudança. Ele continua sendo o Rick, mas é o cara que não é a mesma pessoa o resto da vida. Ele descobre algo sobre a música, vida, trabalho e muda. O fato dele realmente escutar o faz ser um dos melhores produtores de todos os tempos. E em uma música, ele escuta tudo. Às vezes ele faz muitas poucas mudanças. Ele é uma presença calma. Eu o amo. É um ótimo amigo, da maneira dele. Para esse álbum, tivemos muitas músicas, muitas gravações dos vocais e muitas letras para escrever. E ele sugeriu irmos para o Ilha Kauai fazer isso, o que achei uma ótima ideia. Pegamos o avião e no dia seguinte eles fecharam a ilha, ninguém saía, ninguém entrava. Foram seis meses em uma ilha que o tempo foi esquecido. Foi fácil de lidar com essa situação porque eu não tinha mais nada para fazer, além de andar de bicicleta e pensar em música. Estava com vários CDs com músicas inacabadas e o luxo de ter um tempo que nunca tive na minha vida, que era acordar, ficar três horas escrevendo, ouvindo minha caixa de som, andar de bicicleta, observar ao redor, sentir a brisa e ir encontrar o Rick nas próximas três horas. Às vezes eu tinha que pegar um barco para chegar até onde ele estava. Foi um momento muito bom da minha vida escrita por forças maiores que eu. Tinha músicas que eu não queria trabalhar, mas já que eu tinha tempo para isso, me dediquei a elas.”

E foi quando Anthony estava na ilha que a música “Poster Child” criou forma:

“Ligava para o John para conversar o que ele achava das minhas ideais para as músicas e ele me incentivava. E uma dessas músicas virou “Poster Child”. Eu achei que essa música não iria entrar no álbum porque o Flea trouxe duas linhas de baixo funky no mesmo dia. Não eram iguais, mas da forma que eu ouvia, achei que tinha que escolher apenas uma delas. A princípio eu escolhi a outra, que acabou virando a música “Peace And Love”, que não entrou no álbum. Então a que eu achei que era o melhor funk, acabou não sendo. Fiquei muito tempo com essa música que se tornou “Poster Child” antes de eu achar meu lugar nessa música. Essa foi uma que me surpreendeu ter ganho vida”.

Também falou sobre o single “These Are The Days”:

““These are The Days” foi uma música que o John trouxe junto com o arranjo. É uma versão de melodia que nunca vou conseguir recriar. Não consigo recriar as melodias do John com perfeição. Ele está um outro nível melódico, então geralmente eu simplifico e trabalhei com a primeira ideia que veio na cabeça quando eu ouvi o arranjo da música, que é muito bombástico e é quase como uma grande orquestra clássica explodindo. É uma reflexão sobre a vida e os Estados Unidos, mas não necessariamente algo bom ou ruim. É algo do tipo que podemos estar lidando com mais coisas do que podemos aguentar, então vamos dar um passo para trás e repensar um pouco. Mas não é dizer “isso é certo, isso é errado”, mas parar para analisar que é isso que nos tornamos e se realmente queremos isso.”

Finalizou o bate papo explicando a razão pelo RHCP existir há tantos anos:

“Acho que é a química. Não é tanto as individualidades e sim a soma disso. Existe uma competição saudável de irmãos que nos mantém juntos. Nós passamos por muitas coisas juntos, então dependemos uns dos outros. E talvez um pouco de sorte pelo fato de as pessoas certas terem se encontrado. Eu nunca sinto que terminei de me expressar. Sou muito grato por ter um lugar onde possa me expressar. Fico empolgado com o que será a próxima coisa que vamos fazer. As cartas têm jogado a nosso favor pensando dessa forma, especialmente com o John dizendo “sinto falta disso, vamos fazer novamente”. Acho isso ótimo porque tenho oportunidade de escrever novas músicas. Então talvez seja reconhecer essa benção e ser gratos por isso e ter o grupo como uma unidade ao invés de pensar individualmente. O grupo se movimenta junto e eu prefiro dessa forma. É mais divertido. Quatro ingredientes combinando entre si é mais interessante do que apenas um único ingrediente.”

Confira entrevista na integra (Legendado):

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