Mike McCready entrevista os RHCP (ENTREVISTA COMPLETA!)

A entrevista que vocês estão prestes a ler, foi gravada durante a passagem dos Peppers (24 de Abril) pelo New Orleans Jazz Festival, que aconteceu do dia 22 de Abril ao dia 1º de Maio de 2016. Mike McCready (guitarrista da banda Pearl Jam) entrevistou Flea, Josh e Chad para o Pearl Jam Radio, canal da emissora de rádio Sirius XM.

O texto da entrevista foi transcrito, traduzido e adaptado por Ana Beatriz Barata exclusivamente para o RHCP Brasil.

Extraímos toda a conversa do vídeo abaixo de forma explicativa para facilitar a leitura e compreensão de todos.

Confiram!

McCready entrevistou os três separadamente, dividindo a entrevista em três blocos. O primeiro foi Flea. McCready perguntou a ele sobre suas primeiras memórias musicais. Flea disse que tinha algumas memórias “falsas”, pois quando era pequeno algumas crianças o enganaram querendo mostrar que tocavam instrumentos, mas estavam apenas brincando com vassouras e tampas de lixeiras, com um rádio tocando ao fundo. Sua primeira memória musical de fato tem relação com seu padrasto. Seus pais se separaram quando ele era bem jovem e eles haviam se mudado da Austrália para os EUA (o pai de Flea era um funcionário do consulado australiano e, nas palavras dele, “um cara quadrado”). Sua mãe se casou novamente com um músico de jazz que morava no porão da casa dos pais e logo ele, seus irmãos e sua mãe estavam morando lá também. Eventualmente, eles se mudaram para uma casa própria e o padrasto de Flea recebia vários de seus amigos (também músicos de jazz) com todo tipo de instrumentos e ele diz que tinha 7 anos na época e ficou fascinado por isso.  Segundo ele, “chegou a um estado de iluminação”. Flea começou a tocar bateria aos 9 anos, aos 12 começou a tocar trompete e sua intenção era se tornar um músico de Jazz. Apenas no segundo ano do ensino médio ele começou a tocar contrabaixo, quando conheceu Jack Irons, Hillel Slovak e Alain Johannes, que tinham uma banda chamada “Anthym”, e não gostavam do baixista, então pediram a Flea para aprender a tocar. Duas semanas depois, ele estava no palco com a banda, sempre tocou com pizzicato e não com palheta.

McCready fala sobre a importância dos Red Hot Chili Peppers para o Pearl Jam e sua existência. Jack Irons (que foi baterista dos Peppers até a morte de Hillel, em 1988) apresentou Eddie Vedder ao resto da banda, e em 1992 o Pearl Jam participou da turnê de Blood Sugar Sex Magik junto aos Peppers e Smashing Pumpkins. Eddie e o resto da banda sempre agradecem muito aos Chili Peppers, que segundo McCready foram muito generosos e amáveis com eles durante a turnê, cedendo tempo de passagem de som e equipamentos de iluminação. Ele afirmou que o Pearl Jam deve o sucesso aos Peppers. Flea diz que aquele tempo era muito excitante e que ele vê o rock hoje como uma “forma morta” de certa maneira. Ele afirmou que, em sua época, querer entrar para uma banda e viver de música era considerado loucura e que sua atitude era de não se importar e ir atrás disso, e que ele era “o cara que você xinga na escola” e que ele acabou por construir uma carreira dessa vontade. “Mas hoje em dia, você decide que vai entrar em uma banda de rock, e as pessoas falam ‘Ótimo! Vamos arranjar um consultor de imagem, advogado e um empresário e vamos ver o que podemos fazer aqui. É uma boa chance de fazer dinheiro para você.’ “ Flea afirmou que sempre soube que iria viver da música, dadas as circunstâncias (sorte e capacidade de se manter) e deu um pequeno conselho para os que querem viver de música: ter em mente que é possível fazer isso, mesmo que você não se  torne um membro de uma grande banda de rock.

A seguir, Flea fala sobre o tempo em que tocou na banda californiana de punk rock Fear, na qual ele estava quando a banda em que ele estava (“What is This?”) se tornou Red Hot Chili Peppers. Ele diz que foi uma época intensa, e que na primeira vez em que viu Fear tocar estava completamente louco de ácido e gostava mais de rock progressivo como Yes, por exemplo. No entanto, ele teve uma epifania durante o show (que talvez possa ser atribuída ao ácido), e diz que se deu conta de que não importa o quão bem você toque, ou quanto conhecimento tenha, que é sobre a motivação e a intenção emocional e o que se quer passar como músico. Duas semanas depois, ele ficou sabendo que o baixista da banda havia saído, então fez uma audição e entrou para a banda, onde ficou até 1984. Isso causou mágoa aos seus companheiros na então What Is This, Hillel, Jack e Alain. Especialmente Hillel.

Sobre Slovak, ele diz que os dois e Anthony Kiedis passavam praticamente todo o tempo juntos na adolescência e se chamavam “The faces”. Usavam muitas drogas, ouviam música, iam a shows, procuravam garotas e dormiam na praia. Todos vieram de famílias disfuncionais, então se tornaram as famílias uns dos outros. Havia uma grande irmandade e cumplicidade entre eles, muitas piadas internas e referências também. Ao fim da entrevista, McCready cita que o Pearl Jam gostaria de fazer um show para o Conservatório Silverlake (fundado por Flea em 2011), como agradecimento por tudo que os Peppers fizeram por eles.

A seguir, Josh Klinghoffer foi o entrevistado. Josh e Pearl Jam têm uma ligação em comum: o baterista Matt Chamberlain. Ele foi baterista da banda por algum tempo, antes de ir para a banda do Saturday Night Live (programa de comédia dos EUA) e fez algumas jams com Josh, que acabaram se tornando um álbum instrumental.

Josh conta como entrou para os Red Hot Chili Peppers. Ele os conheceu por causa de sua conexão com Bob Forrest (Thelonious Monster), com quem formava a banda Bicycle Thief ainda na adolescência e que conhecia os RHCP. Acabou se tornando amigo pessoal de John Frusciante e colaborou com ele em alguns projetos. (Curiosidade: Em 1988, John Frusciante fez audição para o Thelonious Monster, mas ficou na banda por apenas três horas e foi chamado para o RHCP porque eles ficaram tão impressionados com a habilidade musical dele.) Em 2007, Josh se tornou músico de backup para a banda, para músicas ao vivo que necessitassem de duas guitarras. Assim, quando John resolveu deixar a banda, Josh foi chamado para fazer parte do grupo. Ele afirmou ainda que infelizmente não teve mais contato musical com John desde então, e que ele “está fazendo as coisas dele”.

Josh é um multi-instrumentista: toca bateria, guitarra, baixo, teclado, entre outros. Apesar de ser principalmente guitarrista no momento, seu primeiro instrumento foi a bateria, a qual o ajudou muito em questões de ritmo. Ele só começou a tocar guitarra de fato quando foi para o Bicycle Thief e afirmou que quando conheceu a música dos Peppers (por volta de 1996) só tocava bateria, então teve que aprender as músicas na guitarra depois, e aprendeu rápido. Sobre o Pearl Jam, disse ter ficado emocionado por Eddie Vedder ter citado seu nome nos agradecimentos durante o Jazz Festival, apesar dos dois não se conhecerem pessoalmente. Mike fez novamente um comentário sobre a relação entre as duas bandas, e falou sobre um evento em que RHCP, Pearl Jam e Nirvana tocaram juntos em San Diego e que havia uma tensão boba entre PJ e Nirvana na época.

Em relação à produção de The Getaway, Josh comentou sobre sua relação com Brian (Danger Mouse). Ele trabalhou por dois anos como músico de apoio do Gnarls Barkley (duo composto por Danger Mouse e CeeLo Green) e já conhecia Brian antes por ter trabalhado em uma de suas produções. Afirmou que a abordagem do produtor em relação à guitarra era bastante livre, ele tinha uma série de efeitos à disposição e liberdade para criar. Havia uma ordem para os instrumentos na hora da composição, primeiro Chad com a batida, em seguida Flea e após, Josh. Ele conta que “Algumas vezes eu estava afinando ou esbarrava com a guitarra em algo e ouvia: ‘Ei, o que é isso? Faça isso de novo’”. O processo de produção foi bastante abstrato por vezes e nada ortodoxo, bastante diferente do que os Chili Peppers estavam acostumados a fazer. Foi bastante experimental e construtivo, porque as músicas foram compostas parte por parte, e não fazendo jams no estúdio como sempre faziam. A produção do disco levou 14 semanas (dividida em blocos de duas semanas).

Josh conta que o início do processo criativo para esse disco não era bem o que ele queria, pois eles haviam acabado de voltar de uma turnê e que o primeiro álbum com eles (“I’m With You”) trouxe algumas “dores de crescimento” (em relação a seu lugar na banda e adaptação), que esse será o primeiro disco em que ele é um membro de fato e que todos agora se sentem como uma banda “de verdade”. Todos contribuem para a composição das músicas, e Anthony, Flea e Chad sempre foram muito generosos e acolhedores com ele, além de liberarem acesso a tudo. Josh queria que todos estivessem bastante envolvidos e unidos para a gravação de The Getaway, e foi nesse contexto que Brian entrou como produtor, um ano após o início da composição.

Sobre a banda Dot Hacker, na qual Josh canta e foi formada com alguns de seus amigos mais próximos, ele conta que o projeto começou entre seis meses e um ano antes dele entrar para os Chili Peppers e que era um de seus sonhos de infância fazer parte de uma banda. Eles estavam compondo para gravar o primeiro disco quando Josh foi convidado para a RHCP e ele tentou conciliar as duas bandas,  mas não havia tempo para fazer tantos shows e estar presente na Dot Hacker. No entanto, a banda já lançou alguns discos e gravou o terceiro (que deve ser lançado perto de The Getaway) durante a época em que Flea estava com o braço quebrado e os Chili Peppers aguardavam a recuperação dele. Eles também pretendem sair em turnê; Josh diz que não vê problema em sair de uma turnê para outra e que tem que “se lembrar de descansar algumas vezes”.

Em relação a suas influências musicais, Josh citou os Beatles e Beach Boys, que ouvia em fitas de seu pai e seu tio. Ele não entendia à época, mas eles mostraram a Josh a importância de se fazer músicas realmente boas e que ele poderia ouvir a qualquer hora do dia e ainda tem vontade de ouvir 30 anos depois. Ele sempre teve uma obsessão por tocar em uma banda, “A ideia de pessoas diferentes se juntando e fazendo algo juntas.”. Na infância ele não teve a oportunidade de ter uma banda e começou a tocar com Bob Forrest ainda adolescente, então ele só esteve em uma banda “de verdade” quando começou a Dot Hacker, já que no Bicycle Thief eram apenas ele e Bob, que escrevia a maior parte das músicas. McCready comenta que a ideia de estar em uma banda (4-5 pessoas compondo juntas) sempre foi presente na vida dele e esteve em bandas desde os 11 anos. Isso o ajudou a se tornar um músico melhor porque teve de aprender a não tocar algumas vezes e a lidar com outras pessoas. Josh afirmou que trabalhou com músicos por muito tempo, mas nunca em um grupo onde estivessem todos no mesmo ponto, querendo as mesmas coisas, que é onde está agora.

O próximo bloco da entrevista é com Chad Smith, que entra fazendo piadas e rindo bastante. Primeiro, ele conta sobre suas primeiras memórias musicais: sua mãe tocava piano (em maior parte músicas folk). Sua segunda memória musical, diz ele, é o anúncio de jogadores no estádio de baseball dos Minnesota Twins, que ficava ao lado de sua casa, antes de se mudar para Detroit. Ele diz que está se ficando velho, Mike também comenta sobre, mas que tem 50 anos e está viril. Quando pergunta para Chad “o que significa estar viril?”, ele responde “significa que você ainda tem grafite no seu lápis”. Mike fala de seu lápis modelo Ticonderoga, que coincidentemente é o nome de uma das músicas de The Getaway (This Ticonderoga), e Chad faz alguns barulhos emulando a música, e diz que é “uma mistura de metal com funk”.

Sobre sua evolução como baterista, ele diz que começou a aprender com sete anos, mas não tinha aulas, “só queria bater em algumas coisas”. Tinha uma bateria feita de potes de sorvete e papelão, e foi influenciado pela coleção de discos de seu irmão mais velho Brad, que tinha bandas do fim dos anos 60, início dos anos 70, como: Led Zeppelin, Cream, Queen, Bowie, Deep Purple, Beatles, Rolling Stones, Matahupo, Humble Pie, David Bowie e Black Sabbath. Citou Bill Ward (Black Sabbath), Ian Paice (Deep Purple) e Roger Taylor (Queen) como algumas de suas influências. Pensou: “Isso é perigoso e legal e eu quero fazer!”. Ele teve uma banda com seu irmão chamada “Rockin’ Conspiracy” e uma das músicas deles se chamava “Chain of Leather” (corrente de couro) e a banda era péssima, segundo ele diz.

A seguir Chad fala da diferença entre tocar com Michael Anthony (Chickenfoot, ex-Van Halen) e Flea. Ele diz que prefere a versão do Van Halen com David Lee Roth e não com Sammy Hagar (com quem já tocou) e que Michael Anthony é “um cara super legal e um grande amigo, um baixista sólido” e que o estilo dele de tocar baixo é mais heavy metal. Flea tem um estilo diferente e eles têm uma relação musical de mais de 20 anos e “continuamos crescendo e nos desafiando, mas meio que sabendo o que vamos fazer” e que é bastante intuitivo. Ele compara essa relação ao disco ao vivo “How the West Was Won”, do Led Zeppelin. Também dá um conselho aos músicos iniciantes: “Quando você gosta de improvisar ou fazer jams, se alguém fizer besteira, não olhe feio, ninguém vai notar, continue tocando.” Ele e Flea têm uma “conversa musical” – às vezes ele lidera, às vezes Flea, às vezes nenhum dos dois.

Sobre Danger Mouse ele disse “Um cara inspirantemente estranho, funcionou perfeitamente.” Por vir de um mundo mais “hip-hop” de trabalhar no estúdio, de pôr os instrumentos em camadas (bateria, baixo, guitarra e vocais e depois juntá-los), algumas músicas foram feitas desse modo e outras da maneira tradicional da banda de jam e improviso. Foi diferente para os RHCP deixar de lado o jeito tradicional, um pouco difícil a princípio, mas funcionou, tiveram que acreditar no processo, e eles conseguiram boas coisas a partir dele. Foi bom para a banda mudar, não haviam tido outro produtor desde 1991 (Rick Rubin), e apesar de o amarem e o verem um “grande cara da música”, eles quiseram uma mudança e tentar coisas novas – precisavam disso – e foi um sucesso. Chad disse que eles tinham composto material para 16 discos, coisas muito boas.

Em relação a Josh Klinghoffer, Chad foi só elogios. Brincou dizendo que não é mais “o cara novo na banda”. Contou que Josh é muito musical por ser multi-instrumentista, e que The Getaway é o primeiro disco em que Flea não toca contrabaixo em todas as músicas. Josh toca esse instrumento em The Hunter, e foi comparado a Paul McCartney por seu companheiro de banda. Elogiou também os vocais de Josh, que para ele é “um músico completo e totalmente desenvolvido e apesar de novo é uma alma antiga”. Foi complicado quando ele entrou na banda em termos de integração, pois ele, Anthony e Flea já tinham algo estabelecido, ele era o integrante novo e tinha um legado a seguir, mas está tudo correndo bem.

McCready cita mais uma vez a importância dos RHCP para o Pearl Jam, e agradece a Chad pela amizade. Chad fala que Pearl Jam “roubou alguns caras da equipe deles”, já que alguns técnicos de som e iluminação foram trabalhar para o Pearl Jam e conta que Flea foi quem convenceu os Peppers a chamar o PJ para a turnê (na qual os Peppers usaram os famosos chapéus com chamas). Em 2017 essa turnê fará 25 anos e é visível o quanto os -integrantes do Pearl Jam valorizam a amizade dos RHCP.

Ana Paula Mancini: