Entrevista: Flea conversa sobre o filme Low Down, com Ninja do grupo Die Antwoord

Low Down, primeiro longa-metragem de Jeff Preiss, não é um filme fácil de assistir.

Ambientado em Los Angeles, na década de 70, o filme é baseado no livro de Amy Jo Albany, que conta como foi crescer ao lado de seu pai, o pianista de jazz Joe Albany. Na adolescência, Amy era cercada por viciados em heroína: sua vizinha era viciada e prostituta, o moço gentil da rua debaixo era viciado e ator pornô, e seu pai e seus amigos, todos jazzistas e drogados. Sua mãe, que periodicamente aparecia em sua casa, também era viciada e alcóolatra. Mas Amy ama seu pai, e ele adora ela também. Ela só queria ver ele ser bem sucedido, ao invés de vê-lo se auto-destruindo.

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O filme, que foi apresentado no Festival de Sundance em janeiro e estreia essa semana (nos Estados Unidos), apresenta Elle Fanning e John Hawkes como Amy e Joe, com Glenn Close como mãe de Amy, Lena Headey como sua mãe, e Flea (do Red Hot Chili Peppers) como o melhor amigo de Joe, um trompetista chamada Hobbs.

Flea também produziu o filme, junto com seu companheiro de banda, Anthony Kiedis. Flea já participou de outros 15 filmes, incluindo “De Volta para o Futuro 1 e 2”, “Garotos de Programa” e “Medo e Delírio”. Seu papel em Low Down, contudo, é o mais significativo até agora, é uma transição de “músico que atua” para ator. Aqui, Flea fala com seu grande amigo Ninja, do trio de hip hop africano Die Antwood, sobre a experiência em filmar Low Down.

Olá Flea. Você está no ar com o Ninja.
Cara, eu tenho feito muita divulgação do filme, está uma loucura. Agora estou no meu quarto de hotel em Nova York, com a Sandha. Como você está?

Legal. Estou na África, no mundo africano.
Como está aí?

Está maravilhoso.
Legal, cara. Como está Tokkie?

Ele está bem. Está super feliz por estar de volta. Não posso levar ele pra muito longe. Ele é cravado aqui, ele precisa de sua dose de “gueto”.
(risos) Eu queria estar aí com vocês.
 
Quando é a estreia de Low Down? Hoje à noite?
A estreia é hoje à noite em Nova York. Eu sei que você ainda não assistiu, é um filme bem triste. É um filme bem pessoal sobre a vida dessa menina, uma amiga minha. Fala sobre uma parte bem pesada e triste de sua vida. Seu pai é um músico de jazz, mas a história foca mais em mostrar a vida de uma menina rondada por viciados em heroína. É bem pesado de assistir. É como se todos estivessem vendo o que estava acontecendo e se sentissem mal por ela. Ela é muito legal, mas está em uma posição difícil, embora sua história tenha sido transformada em um filme. O livro tem mais humor, e o filme não vai por essa linha. Ele foca mais no lado pesado.
 
Como ela conhece você?
Foi estranho, porque a vida dela é muito parecida com a minha. É insano o tanto que temos em comum. Temos a mesma idade, crescemos em Hollywood (separados por alguns quarteirões) e eu tinha um parente que era músico de jazz, e também alcoólatra e viciado em drogas. Eles faziam parte da mesma cena de jazz de L.A. Nós dois éramos deixados em casa, e acabamos indo para as ruas, e nos tornamos punk rockers. Uma vez eu encontrei com ela em uma doceria e dei em cima dela. Ela estava com o avô.
 
Você já participou de outros filmes, e eu tenho a impressão de que você tem um estilo de atuar parecido com o dos rappers dos anos 90, onde você é você mesmo, que faz as coisas do seu jeito. Aconteceu isso com esse filme?
Foi bem diferente. Eu gosto da ideia de atuar. De todos os filmes que já participei, as vezes acho que fiz bem e as vezes acho que não fiz tão bem assim, mas eram mais como figurações, eu simplesmente aparecia e fazia loucamente. Mas nesse filme, foi a primeira vez em que senti que eu precisava realmente atuar. Eu tinha que ser alguém que eu não era. Eu interpreto um viciado patético, e você me conhece: ‘Leite de amendôas, por favor, com arroz integral e blueberries orgânicas, por favor’. Quando eu era mais jovem, eu usei muito heroína, então eu sei como é estar sob efeito da droga. Mas eu não sabia como era ser um músico frustrado de jazz, que lutava contra o vício, que era amargo e todo ferrado, mas que ainda tinha esperança por causa da beleza da música. Teve muita preparação, muito trabalho, e também tive ajuda de um instrutor de atuação.
 
Foi totalmente roteirizado?
Foi totalmente roteirizado, mas algumas coisas acabaram sendo na improvisação. Mas o mais legal foi que, quando eu estou tocando, e provavelmente acontece o mesmo com você quando você está fazendo seus raps, é como se eu estivesse em um transe estático. Você não pensa em mais nada. É essa coisa fluindo através de você, que faz você desaparecer dentro dela. Com a atuação, eu sempre estava consciente do que eu estava fazendo. Essa foi a primeira vez que eu tive esse mesmo sentimento de quando eu estou tocando.
 
É a mágica acontecendo.
A mágica aconteceu, e nunca tinha acontecido comigo antes. Acho que aconteceu porque eu estava passando por esse momento difícil. Eu tinha terminado com a minha namorada. Eu queria ela de volta, ela não iria voltar. Eu estava miserável. Eu não estava dormindo. Eu não estava comendo, não era eu mesmo. Acho que a minha infelicidade naquela época ajudou a fazer esse filme.
 
Quando você estava gravando?
Sim.
 
Sério? Nossa…
Sim, mas eu acho que ajudou. Eu estava muito triste, questionando minha própria existência, então eu pude canalizar a dor para o filme. Antes eu podia fazer isso com a música, mas não tinha feito com filmes até então. Foi uma lição sobre como deixar isso sair de você, ao invés de ficar pensando no que você irá fazer.
 
Quanto tempo durou as gravações?
Não muito. É um filme com orçamento baixo, foi todo filmado em menos de um mês. Eu gravei durante uma semana.
 
O que significa para você ser o produtor do filme?
Basicamente, eu só entrei com o dinheiro, e ajudei com algumas outras coisas. Eu ajudei com a música, com o elenco. Eu recomendei algumas pessoas com quem já trabalhei. Me reuni com eles, me envolvi bastante, porque foi algo que acreditei muito. Não muito por ter uma relação com a minha história e ser muito parecida com a da Amy, mas também por causa do jazz, que eu cresci ouvindo. Eu cresci com esses caras do jazz dos anos 70 de Los Angeles, e eles cresceram idolatrando Charlie Parker, Charles Mingus, Lester Young, todos esses músicos incríveis. Eles dedicaram suas vidas a aprender essa arte sofisticada, profunda e espiritual. E nos 70, ninguém se importava com eles. Eles não conseguiam um emprego. Eram artistas incríveis, mas estavam fora de seu tempo. Por causa disso, muitos tiveram problemas com drogas. Muitos eram amargos e bravos. Muitos conseguiram vencer na vida, mas era muito difícil. Foi o que aconteceu com meu padrasto. Eu cresci com esses caras, eles eram incríveis, mas não conseguiam um tempo. Eles não sabiam como fazer coisas boas. Miles Davis era esperto o suficiente para fazer seus álbuns, mas eles não sabiam como fazer.
 
Em que ano o filme se passa?
No começo dos anos 70, em Hollywood. Foi muito importante para mim lançar uma luz sobre esses caras e aquela época, tem uma justaposição engraçada que não se encaixa. É triste, mas ao mesmo tempo é bonito e interessante. Significa muito para mim ter um filme sobre esses caras.
 
É muito bom quando você se conecta com algo pessoal.
Sim, você é muito bom nisso quando está fazendo hip hop, você sente a cultura africana, que nós da América não sabemos nada. Eu conheço um pouco, de andar com você por aí, mas para as pessoas que assistem “Baby’s On Fire” no Youtube, eles sentem uma cultura diferente. E isso é muito bom.
 
Fonte: Interview Magazine
Tradução: Amanda Olivieri